De repente olhei para um uniforme de enfermagem que havia sobre a cama e lembrei-me de um estágio que havia feito para a faculdade em um hospital meses atrás, quando conheci o Dr. Conrado Gonzáles Sans. Encontrei-o enquanto o auxiliava na cirurgia de uma criança, durante a efusão de sangue. A idiossincrasia com que ele agia com a jovem era incrível, tanta delicadeza, tratava como se fosse sua filha. Ele é um homem cauteloso, honesto e muito dedicado à sua família. Casado com uma linda mulher e pai de dois meninos adoráveis. Seu consultório transparecia sua personalidade. Era simples e sem muito luxo, mas notei sua apreciação pelo mar e por barcos de grande porte quando vi uma pequena escultura de um, com um traquete imenso, sobre sua mesa clássica, como os demais móveis que ali estavam e de um quadro com a imagem de uma iara que ele mesmo havia fotografado. Também era perceptível sua admiração por ceroplastia, eram incontáveis as esculturas que agraciavam aquele ambiente.
Conrado adorava velejar, ele havia me contado que era proprietário de um pequeno barco e que, mesmo com seu pouco espaço, já havia feito viagens magníficas. Contou-me o médico, que sofrera um terrível acidente ao mar devido a uma forte procela, onde seu barco colidiu contra um rochedo. Devido ao acidente, perdera a memória. Ele voltou até a cidade do porto na caçamba de um caminhão. O voluntariado para o resgate dos objetos pessoais do Doutor havia durado horas, e a única coisa que encontraram, foram apenas seus documentos. Disse-me ele, que só por isso sabia que já estava com quase 45 anos, coitado! Contou-me que pouco se lembrava de seus familiares, mas sua esposa, que era médium, ajudava-o a recordar pessoas queridas, porém, não conseguia localizar sua mãe. Dissera-me que havia colocado anúncios de “procura-se” até mesmo em embalagens de xampu.
A descrição que aquele médico fez, tanto da sua mãe, como da casa em que fora criado, encaixava perfeitamente com o lugar onde eu estava, e com as características de Neli. Decidi retribuir a solidariedade daquela amável senhora, quem sabe Conrado não era seu filho? Meu coração encheu-se de esperança, quando tratei de ligar para todos os registros que eu possuía daquele hospital. Não foi difícil localizar Conrado. Poucas vezes emocionei-me tanto, quanto ao presenciar aquele reencontro.
Anos se passaram desde aquele dia frio, onde tudo aconteceu. Passo calmamente pela rua, deixando minha pegada na neve que se amontoa na calçada. É mais um dia frio de inverno, e tenho por companhia apenas meu grosso casaco de lã e meu cachecol de crochê. Na vitrine de uma livraria, algo me chama a atenção. Sob o título de “A incrível história de minha vida” um grosso livro rosa ganhava lugar de destaque dentre outros que ali estavam. Aquele livro era especial. Era assinado por Neli Gonzáles Sans. Sorri feliz, e segui meu caminho, pensando em quantas outras aventuras a vida me colocaria.
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