O inverno estava rigoroso, como sempre por aqui, e se não fosse pelo meu grosso casaco de lã e meu cachecol de crochê já estaria congelada. A gradação da temperatura de forma negativa me atingia cada vez mais. Estava perdida, sem a mínina noção da direção que deveria tomar. Por sorte – ou intuição – virei à esquerda e ao longe avistei uma pequena casa onde, sem pensar duas vezes, fui buscar abrigo. Dei três batidas na porta e logo uma simpática senhora abriu e já foi me convidando para entrar. Eu era uma desconhecida para ela, o que pareceu não fazer muita diferença. A senhora reparou que meu queixo estava batendo e logo tratou de oferecer um chá quente para me aquecer. Enquanto ela preparava o chá, pude observar onde eu estava. Era uma casa simples, mas muito acolhedora. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Em um canto da sala havia um quadro em forma de retângulo com a oração Salve Rainha, como uma manifestação de brandura. No centro uma pequena mesa revestida de fórmica. Havia três quartos, embora apenas um fosse ocupado. Pelo vidro diáfano da janela avistei uma chafurda velha e suja nos fundos do quintal, que certamente não fora construída por uma empreiteira de qualidade. A casa era habitada somente por esta velha senhora que não estava em seu melhor estado, e mesmo assim parecia feliz.
Seu nome era Neli, e mesmo aos sessenta anos e sofrendo de Alzheimer, continuava trabalhando na primeira padaria de sua cidade. Garantiu que ainda fazia os melhores bolos da região, mas me contou que seu grande sonho era escrever um livro, pois sua imaginação lhe trazia histórias magníficas durante a noite, mas quando chegava a manhã já era tarde demais, o Alzheimer a fazia ter esquecido tudo. Neli ofereceu sua modesta casa para eu passar a pernoite, como não havia outra escolha, aceitei. Com o pouco que sabia de Neli já conseguia perceber o quanto ela era uma pessoa solitária. Seus filhos seguiram suas próprias vidas e o que sobrou a ela foi apenas essa casa no interior, com três quartos e uma chafurda no quintal. No dia seguinte, quando acordamos, Neli não lembrava mais meu nome, culpa do Alzheimer. Tive sorte por ela lembrar quem eu era e não me expulsar no mesmo instante. Nesse momento eu tive outra intuição. Conhecia Neli de algum lugar, só não lembrava em qual átimo de minha vida poderia ter encontrado uma mulher com tanta compaixão quanto essa velha senhora que me acolheu em sua casa.
*Fragmento de trabalho acadêmico para Oficina da Criatividade
**Autoria de: Fernanda Nunes Queiroz, Giuliane da Silva e Luísa Ziemann
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