quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma viagem de ônibus

Hoje, assim como todos os dias desde que entrei na faculdade, fiz uma coisa que detesto. Uma viagem de ônibus. Tudo bem, talvez não seja uma viagem, afinal, duram apenas trinta minutos. Mas some trinta minutos pra ir e mais trinta minutos para voltar e temos uma hora de stress. E isso é mais do que o suficiente para que eu deteste pegar ônibus. O que me consola é que sei que é pior ainda quando a gente começa a perder o ônibus. E como não tem outra saída, eu aprendi que não adianta de nada eu detestar, tenho que pegar ônibus todo dia.
Mas hoje foi diferente. Talvez pelo clima. Sabe, hoje o dia está cinza, a chuva cai de tempos em tempos, o que me faz lembrar a minha cama, minha vontade de dormir... E lembrar que ainda assim eu estou dentro de um ônibus. É, com certeza, não foi clima. Mas acho que hoje eu aprendi a gostar de andar de ônibus. Se eu contar isso pra minha mãe ela não vai acreditar.
Eu estava chorando lendo uma crônica da Martha Medeiros (isso mesmo, chorando) quando olhei pela janela e sorri. Foi uma mistura de sentimentos. Assim. Do nada. Em um segundo eu estava chorando, não de tristeza, mas de emoção com o assunto da crônica, e no mesmo instante eu estava sorrindo. O motivo? O ônibus estava passando por um parque e pude avistar ao longe alguns senhores sentados em uma pequena roda... Jogando xadrez. É. Isso me fez sorrir. E ainda faz quando eu lembro da cena.
Tudo bem, você deve estar me achando uma idiota. Mas pense, em uma tarde cinza, uns cinco senhores que, com certeza, já passaram dos sessenta anos (quem sabe até dos setenta), se reúnem no parque para jogar xadrez e conversar sobre tudo, ou sobre nada. Senhores esses que já deram sua contribuição para o mundo, já viveram bastante (não demais, afinal, a gente nunca vive demais) e agora só estão assistindo, de camarote, a vida passar. Ou pelo menos, o resto dela.
Senhores que tenham talvez como única preocupação cuidar o horário dos remédios que devem tomar para ir prolongando a sua estadia em um mundo que já contribuíram o que tinham que contribuir. Nada de preocupação com prazos de trabalhos para entregar na faculdade. Nada de preocupação com as pilhas de procesos para analisar no escritório. Nada de preocupação com a roupa que vão usar naquele jantar importantíssimo na semana que vem. Nada de preocupação com o trânsito que não vai colaborar para buscar os filhos na escola. Isso deve ser magnífico. Eu poderia ficar vendo esses senhores jogando xadrez aqui, conversando sobre alguma coisa que passou na televisão ali, para sempre. Mas não. O ônibus já passou por eles faz tempo. E deixou para trás esse monte de história. Esse monte de vida.
Entenderam agora por que eu detesto andar de ônibus?

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